sábado, 27 de fevereiro de 2010

O ENIGMA DE KASPAR HAUSER

A linguagem é fundamental para que o homem se efetive enquanto tal?
Qual o papel da linguagem?
Um filme pode suscitar, dentre estes, outras séries de questionamentos...


O filme é o relato verídico sobre Kaspar Hauser, um homem que teve a vida ineira trancada, sem ter qualquer tipo de contato social. Sua origem era um mistério quando chegou em uma cidade na Alemanha do século XIX.

O inicio mostra-o acorrentado em um tipo de cela, sem nem um traço de comportamento humano, onde, apenas, brinca com um cavalo de madeira. É alimentado por um homem misterioso que o ensina a pronunciar a palavra cavalo e a escrever o proprio nome, para depois, abandoná-lo com uma carta que o põe aos cuidados de um militar do vilarejo.

Hauser torna-se, então, alvo de curiosidade dos moradores perplexos que o ensinariam coisas básicas do entendimento humano: a andar, a comer, a falar; o que aprendia com muita facilidade; diferente de quando é incitado a compreender as convenções da época, como às ligadas ao comportamento social e à religião, pois não teve uma trajetória de vida que o levaria ao poder de abstração simbólica, adquirida pelo acúmulo de experiencia e convivio social. Era orientado a seguir os costumes da sociedade, algo que não conseguia adaptar-se. Principalmente, por encontrar-se num tempo histórico preso a uma perspectiva positivista, uma visão de que havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado pelo homem “dito civilizado”, do contrario seria classificado como primitivo, necessitando de ajustes, caso de Hauser. Vê-se a partir daí, na leitura de Herzog, um choque de culturas, uma inversão de papéis, sobre, qual lado estaria sendo mais invasivo para o expectador do filme.

Este comportamento demonstrava, à sociedade, a linha tênue que se pode ter entre o animal e o homem, desde que este seja privado do convivio entre seus “iguais”. Em contrapartida Hauser é dócil, gentil e emana um estado de pureza e inocencia, próprios dos recém-nascidos, abstraindo deste estado a maxima de Jean-Jacques Rousseau. Seria o homem bom por natureza, e a sociedade que o corromperia?

Ao ser “apresentado aos mistérios da fé”, refuta-se em reconhecer a origem da criação divina: “não consigo imaginar que Deus do nada criou tudo”. Vale dizer que isto põe em xeque o sentido de estado natural hobesniano, pois é atribuído a Hauser um raciocínio lógico e questionador, estando mais consciente de razão que os demais cidadãos “cultos” a sua volta, que diziam em resposta: “deve admitir os mistérios da fé sem procurar entender”. Em contrapartida, ao ser feita a autópsia de seu cérebro, notou-se um desenvolvimento de massa encefálica sobrecomum em determinadas partes, objetivando, assim, sua capacidade cognitiva superior...

Grande parte dos questionamentos a seu respeito, era feita sobre a experiência em cativeiro ao que respondia ser “melhor que a vida fora dele”, por não ver de forma objetiva este interesse, retrucava: “a única coisa interessante em mim é minha vida”.

Também o tocava a capacidade de sonhar, algo que não lhe acontecia anteriormente, o que, de forma racional, relacionava a sua vivencia atual, edificando o aguçamento de suas percepções a partir do momento que passa a diferenciar sonho de realidade. Traz à tona a psicologia junguiana que associa o sonho e a realidade, linguagem essencialmente humana, advinda das referencias e associações.

A pesquisadora Maria Clara Saboya, em seus estudos sobre o caso, defende que:
"Os objetos não eram percebidos por K. Hauser da forma como a prática social definia previamente, ou seja, K. Hauser estava despido dos "filtros" e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento. Tais "filtros" ou estereótipos, por sua vez, são garantidos e reforçados pela linguagem. Assim, o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem".

Friedrich Nietzsche quando tenta explicar, sob forma de aforismos, a natureza humana, identifica a linguagem como parte da necessidade humana de nomeação, pré-requisito para qualquer tipo de comunicação e do seu próprio estabelecimento quanto tal.
"A importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado de outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor". (p.20)
Como algo tão presente no processo sociabilizante de Hauser para compreender a si próprio e o mundo que o cerca, a linguagem se insere como um sistema simbólico que possibilita a comunicação entre os entre as pessoas, portanto, um requisito para a relação social dos seres humanos, teoria defendida por Saussure, para ele a linguagem é definida como uma faculdade simbólica essencialmente humana; sendo, portanto, produto da razão, que só pode existir onde há racionalidade. A linguagem é, assim, um dos principais instrumentos na formação do mundo cultural, pois é ela que nos permite transcender nossa experiência. E o homem tem na fala, seu principal veículo, seu passaporte para a comunicação.

*By Francisca Costa
*Imagem: lápide de Kasper Houser (leia-se: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido")
REFERÊNCIAS
BASTOS, Rachel Rangel. Revista Eletrônica veredas: a equivalência nas figuras de retórica. (freud x lacan). http://veredas.traco-freudiano.org/veredas-7/txt-rachel.pdf
NIETZSHE, Friedrich W. Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
HERZOG, Werner. O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle) Longa-metragem, 110 minutos, Alemanha, 1974.
JUNG, Carl G. Memórias, sonhos, reflexões. org: Aniela Jaffé. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
SABOYA, M. C. L. O mistério de Kaspar Houser (1812?-1833): uma abordagem psicossocial. Psicologia USP, 2001.

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